Com cena de agressão a Margô, “Por Você” aborda com responsabilidade e sensibilidade o drama de quem escolhe ensinar nos dias de hoje
A sequência envolvendo Margô, em PorVocê, vai muito além de uma simples confusão dentro de uma escola. Na trama de Dino Cantelli e Juliana
Peres, a agressão sofrida pela professora abre espaço para uma discussão
necessária sobre violência, autoridade, desvalorização profissional e,
principalmente, sobre o respeito às mulheres.
Tudo
começa quando Margô confronta alguns alunos que esconderam bebidas alcoólicas
dentro da escola. A situação sai do controle quando um dos adolescentes a
empurra, fazendo com que ela caia no chão. O gesto é ainda mais simbólico por
acontecer justamente no ambiente em que sua autoridade deveria ser respeitada:
uma professora que está ali para educar, orientar e estabelecer limites acaba
sendo vítima da violência de um aluno.
Ainda
muito abalada, Margô se levanta e reage
com firmeza:
“Nunca mais faça
isso. Você tem mãe, tem avó, tem irmã, tem amigas. E mesmo que não tivesse
nenhuma figura feminina na sua vida, você não tem direito de agredir uma
mulher.”
A
fala ultrapassa os limites daquela escola. Margô não está apenas repreendendo
um adolescente; está tentando ensinar que nenhuma relação de poder, força
física ou diferença de idade dá a alguém o direito de violentar outra pessoa.
Regiane Alves conduz a cena com muita precisão. Eu confesso que até então vinha achando estranha a atriz tão apagada dentro da trama, mas ela estava se preparando
para esse grande momento - o medo, a indignação e a humilhação aparecem nos
gestos da personagem, sem necessidade de exageros. Mas é quando Margô fica
sozinha que a força da sequência realmente se revela. No banheiro, longe dos
alunos e dos colegas, ela chora. É o momento em que a professora que precisou
se manter firme finalmente deixa transparecer o quanto aquela agressão a
atingiu.
A
cena, claro , dialoga diretamente com a desvalorização dos profissionais da
educação. Margô não enfrenta apenas as dificuldades de uma escola com problemas
estruturais. Ela também precisa lidar com a perda de autoridade, com a falta de
reconhecimento e com os riscos enfrentados por quem está diariamente na linha
de frente da educação.
Nesse
núcleo, os autores constroem um dos
retratos mais humanos da novela. Lucas (Amaury Lorenzo) representa o professor
disposto a continuar lutando pelos jovens, enquanto Margô mostra o outro lado
dessa batalha: o desgaste emocional de quem tenta educar e, muitas vezes,
precisa lidar com situações que ultrapassam os limites da sala de aula.
Regiane Alves transforma Margô em uma personagem que não se
resume à fragilidade daquele momento. Ela cai, sente medo, chora, mas também se
levanta e enfrenta o agressor. E talvez seja justamente isso que torne a
sequência tão forte: depois de defender seus alunos, sua profissão e outras
mulheres, Margô também precisa encontrar forças para cuidar das próprias
feridas.
É
mais um ponto forte de Por Você, que
vem a cada nova abordagem provando que sabe tocar em assuntos fortes e
delicados com responsabilidade e sem didática pura e simples.
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Fonte:
Texto: Evaldiano de Sousa


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