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“Quem Ama Cuida” acerta na abordagem da violência doméstica em meio as catarses da vingança de Adriana



        Em meio aos tantos acontecimentos desta semana de Quem Ama Cuida  envolvendo a vingança de Adriana (Letícia Colin) – O julgamento de Ademir (Dan Stulbach), Ulisses  (Alexandre Borges) informando a família da venda das suas ações da joalheria e o aparecimento de Heitor, personagem do Renato Góes,  filho do Artur Brandão (Antônio Fagundes) que julgávamos está morto   -  o que chamou atenção mesmo foi a abordagem  responsável e pertinente sobre a violência doméstica sofrida pela Elenice (Mariana Sena).

        A Elenice que faz parte dos núcleos paralelos, apesar  de ser a grande amiga da Adriana, mas ter ficado de fora  desse arco de justiça da amiga, mas  esta semana ela teve seu grande e merecido momento.

        Esse “esquecimento” da personagem foi até bom para  uma construção mais serena desse  entrecho.  Um dos maiores acertos dessa  construção foi o   Tom (Allan Souza Lima), que  está justamente no fato de a novela não tê-lo apresentado, desde o início, como um agressor evidente. A violência foi sendo construída gradualmente diante do público. Primeiro vieram as intimidações, depois os gritos, o controle das decisões de Elenice e, finalmente, a agressão física, quando ele apertou o braço da esposa e deixou uma marca roxa.

Essa construção é importante porque mostra que a violência dentro de uma relação não começa necessariamente com um tapa ou um empurrão. Muitas vezes, ela se instala antes, por meio do medo, da ameaça, do controle e da tentativa de limitar a liberdade da vítima.

A marca deixada no braço de Elenice também serviu para ampliar o conflito. Rosa (Tatiana Tibúrcio), que nunca viu com bons olhos o casamento da filha, passou a observar a situação com ainda mais atenção. Aquilo que Elenice tenta esconder começa a ficar evidente para a mãe, que percebe que existe algo muito errado naquela relação.

Mas a decisão mais interessante dos autores foi fazer de Dafne (Arlyane Carvalho) uma peça fundamental desse conflito.



Durante boa parte da trama, a filha de Elenice e Tom teve pouca participação. Sua presença era tão discreta que o público quase poderia esquecer que o casal tinha uma filha. Isso muda quando Dafne deseja participar de um passeio da escola e encontra a proibição do pai.

Elenice inicialmente autoriza a filha a ir. Porém, diante da reação de Tom, dos gritos e da intimidação, acaba recuando.

É nesse momento que Dafne começa a compreender a dimensão daquele comportamento.

        A menina percebe que a mãe está cedendo por medo e verbaliza algo que talvez Elenice ainda não consiga admitir completamente. Ela está cansada de ver o pai gritar com a mãe e entende que, ao aceitar aquela situação, Elenice também acaba permitindo que a agressividade de Tom alcance a própria filha.

É uma cena essencial porque Elenice passa a enxergar sua realidade a partir do olhar da filha. O problema já não pode mais ser tratado como uma questão exclusivamente conjugal. A violência ultrapassou a relação entre marido e mulher e passou a afetar diretamente a filha, que começa a compreender que aquele ambiente familiar não é normal.

Com o apoio de Rosa, Elenice encontra forças para permitir que Dafne faça o passeio. E é justamente quando a menina retorna que a novela apresenta a sequência mais impactante desse núcleo até agora.

A direção da Amora Mautner faz uma escolha bastante significativa: não mostrar diretamente a agressão. Isso não é suavizar  o que está acontecendo. Pelo contrário. A ausência da imagem explícita torna a sequência ainda mais angustiante.

Tom entra no quarto, agarra Elenice pelo braço e a retira dali. Dafne entra em desespero e chama pela mãe. Mesmo sendo levada para fora do quarto, Elenice ainda grita para que a filha não a siga.

Então, em uma das imagens mais simbólicas da sequência, ela pega uma caixinha de música com uma pequena bailarina negra e coloca para tocar “Clair de Lune”, de Claude Debussy.

A delicadeza da música contrasta brutalmente com aquilo que está acontecendo dentro daquela casa. O público também não vê diretamente a agressão. Vê apenas as sombras de Tom jogando Elenice contra a parede e escuta os ruídos que deixam claro o que está acontecendo.

A escolha é poderosa porque a cena coloca o espectador muito próximo da experiência de Dafne. Ela sabe que a mãe está sendo agredida, mas não tem força ou condições para impedir. Resta a ela tentar não ouvir. É uma forma de representar a violência sem transformá-la em um espetáculo.

E o desempenho do elenco potencializa ainda mais o resultado. Mariana Sena constrói uma Elenice marcada pelo medo, pela insegurança e pela dificuldade de reagir, mas sem reduzir a personagem a uma mulher simplesmente passiva. A atriz trabalha muito com o olhar, com os silêncios e com pequenas mudanças de expressão. O impacto de perceber que sua filha também está sendo afetada por aquela relação aparece de maneira bastante delicada.

AllanSouza Lima também merece destaque pela composição de Tom. O personagem não precisa ser transformado em uma caricatura de agressor. Sua ameaça aparece justamente nas mudanças de comportamento, nos gritos, na postura e na maneira como tenta controlar Elenice. A agressividade vai crescendo de acordo com aquilo que a novela já vinha construindo.

Arlyane Carvalho, por sua vez, entrega uma Dafne particularmente tocante. A atriz transmite o desespero de uma criança que entende que existe algo muito errado acontecendo dentro de sua casa, mas não sabe como interromper aquilo. O gesto de colocar a música para tocar, permanecer próxima à porta e depois se recolher na cama diz muito sem precisar de grandes diálogos.

A força da sequência também está na interação entre os três atores. MarianaSena consegue transmitir o sofrimento de Elenice sem precisar explicar tudo. Arlyane responde a esse sofrimento com o olhar e com o comportamento de Dafne. Allan mantém a tensão sem transformar Tom em uma figura exagerada.

Depois da agressão, Elenice entra no quarto e encontra Dafne encolhida na cama. Não é necessário um grande discurso. Ela simplesmente se deita ao lado da filha. As duas permanecem juntas, compartilhando em silêncio as consequências do que acabou de acontecer.

A novela não precisou mostrar sangue, gritos intermináveis ou a agressão em detalhes para transmitir a gravidade daquele momento. A violência estava nas sombras, no comportamento de Tom, no rosto de Elenice, no desespero de Dafne e, principalmente, naquela criança tentando se esconder atrás de uma música delicada.

A Sequência foi um  grande exemplo de como atuação, texto e direção podem trabalhar juntos para produzir uma cena de grande impacto primando pela simplicidade ao invés da pirotecnia.

 

Veja Também:

Por Você 


Bastidores de QUEM AMA CUIDA 



Amora Mautner 



Walcyr Carrasco

Tony Ramos



Agatha Moreira

Leticia Collin

Renato Goes 

Fonte:

Texto: Evaldiano de  Sousa

 

 

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