Catarse - Retorno de Adriana em “Quem Ama Cuida” entra para o hall dos grandes momentos de tramas do Walcyr Carrasco
O capítulo desgta segunda-feira (28/09) de Quem Ama Cuida entregou
um daqueles momentos que justificam toda a expectativa criada ao longo de uma
novela. O retorno de Adriana (Leticia Colin) diante daqueles que tanto a
prejudicaram foi pensado para provocar no público exatamente o que uma boa
sequência de vingança deve provocar: emoção, satisfação e sensação de justiça –
A verdadeira catarse cênica.
A
novela passou semanas preparando esse reencontro e, finalmente, chegou o
momento em que Nancy (Jeniffer Nascimento) revelou Adriana como a nova sócia da
A. Brandão Joias. A cena foi construída com cuidado por Walcyr Carrasco e
Claudia Souto, que souberam guardar a grande revelação para o instante
certo.
Walcyr
Carrasco conhece como poucos os mecanismos necessários para
transformar uma sequência de triunfo em um grande acontecimento televisivo. E,
dessa vez, a estratégia funcionou novamente. Adriana sequer apareceu de
imediato. Ela permaneceu dentro de um carro, aguardando o momento de entrar no
evento, enquanto os demais personagens esperavam pela sua chegada.
A
direção de Amora Mautner teve papel decisivo nesse processo. Em vez de
entregar rapidamente a protagonista ao público, a sequência trabalhou a
expectativa. O longo plano-sequência acompanhando Pedro (Chay Suede), Dora
(Mariana Ximenes), André (Henrique Barreira) e Cleber (Breno Ferreira)
aguardando Adriana criou uma tensão crescente até Nancy finalmente autorizar
sua entrada.
E
então Adriana surgiu.
Antes
mesmo de sua entrada, imagens de Ademir (Dan Stulbach), Ulisses (AlexandreBorges) e Pilar (Isabel Teixeira) durante o julgamento da protagonista foram
exibidas. Foi uma maneira bastante eficiente de relembrar ao público tudo o que
Adriana enfrentou até chegar àquele momento.
A
sensação era de que toda a trajetória da personagem estava sendo condensada
naquela entrada. Depois de tantas injustiças, ela finalmente aparecia diante de
seus algozes em uma posição completamente diferente.
O
trabalho de luz também merece destaque. Adriana chegou a provocar um blackout
e, logo depois, apareceu sob um feixe de luz, assumindo literalmente o centro
das atenções. Amora Mautner transformou uma simples entrada em uma
espécie de espetáculo dentro da própria novela.
A
sequência inevitavelmente lembrou a chegada triunfal de Clara Tavares (BiancaBin) em O Outro Lado do Paraíso, outro momento catarse da teledramaturgia escrito
por Walcyr Carrasco. A associação é natural, principalmente porque as
duas personagens passaram por situações de injustiça e retornaram
posteriormente para confrontar aqueles que as prejudicaram.
Ainda
assim, não é necessário colocar as duas cenas em competição. A sequência de
Clara, exibida em 2017, continua sendo uma referência particular dentro da obra
de Walcyr. Adriana, entretanto, teve uma entrada que correspondeu perfeitamente
ao tamanho da expectativa criada por Quem Ama Cuida.
E
a novela ainda encontrou uma frase capaz de resumir toda a atmosfera daquele
momento. Adriana não repetiu o famoso “Não imaginam o prazer que é estar
de volta”, de Clara. Em seu lugar, disparou: “Por que essa cara
de espanto? Sorriam, a justiça demorou, mas agora ela vai acontecer”.
A
frase combina perfeitamente com a nova postura da personagem. Adriana não
voltou apenas para se defender. Ela voltou consciente de sua força e disposta a
ocupar o espaço que seus inimigos jamais imaginaram que ela teria.
Leticia Colin merece todos
os elogios. A atriz esteve especialmente segura na sequência e conseguiu
equilibrar diferentes sentimentos: a emoção de quem relembra tudo o que sofreu,
a satisfação de finalmente estar por cima e a firmeza de uma mulher que não
pretende mais aceitar o papel de vítima. Claro que não é uma surpresa, mas é
sempre válido elogiar esse fenômeno da natureza que ela se transforma a cada
novo personagem.
Um
detalhe visual particularmente feliz foi o reflexo de Adriana nos óculos de
Pilar (Isabel Teixeira). A vilã, completamente surpresa, foi obrigada a
enxergar diante de si justamente aquilo que tentou impedir durante tanto tempo:
o crescimento e a vitória de Adriana.
E
a novela acertou ao não encerrar a sequência imediatamente depois do grande
momento. A catarse continuou através das consequências. Pilar e Ulisses
entraram em conflito, enquanto Thiago (Gui Ferraz) ameaçou vender sua
participação na joalheria para Adriana. A negociação poderia garantir à
protagonista a maioria das ações e ainda funcionaria como uma vingança contra a
tia, responsável por afastá-lo da presidência e colocar Ingrid (Agatha Moreira)
em seu lugar.
O
capítulo também encontrou espaço para o humor em meio à derrocada de Pilar. O
flagrante de Edvaldo (Guilherme Piva) e Tilde (Luana Martau) se beijando na
varanda de seu apartamento foi uma dessas situações que parecem feitas sob
medida para uma vilã que acaba de perder o controle de tudo.
Depois
de ser derrotada pela rival, Pilar ainda precisou lidar com a cena
constrangedora dentro da própria casa.
E
Brigitte (Tatá Werneck) não perdeu a oportunidade de aumentar ainda mais a
irritação da mãe. Enquanto Pilar estava sendo consolada por Rafael (João Vitor
Silva) e Ingrid, a filha declarou que nunca havia acreditado na acusação contra
Adriana pela morte de Arthur (Antonio Fagundes). Como se não bastasse, ainda
enxergou na nova situação uma possível oportunidade profissional na joalheria.
Pilar,
obviamente, não suportou a provocação e expulsou a filha do quarto.
TatáWerneck e Isabel Teixeira funcionaram muito bem juntas nessa
parte do capítulo. Isabel, particularmente, continua encontrando diferentes
maneiras de explorar Pilar. A personagem passou a noite enfrentando as
consequências das próprias armações, e a atriz conseguiu trabalhar tanto o lado
dramático quanto o exagero característico da vilã.
O
grande mérito do capítulo, porém, está em não transformar o retorno de Adriana
apenas em uma cena de vingança. A entrada da protagonista representa uma
verdadeira virada dentro da narrativa.
Adriana
voltou para o centro do jogo. E, desta vez, não retorna como alguém que precisa
pedir espaço. Ela chega ocupando uma posição de poder, enquanto aqueles que
contribuíram para sua queda começam a experimentar as consequências das
próprias escolhas.
Foi
justamente essa combinação que tornou o capítulo tão eficiente: houve
preparação, suspense, espetáculo, emoção, humor e, principalmente,
consequência.
Quem Ama Cuida entregou
um daqueles capítulos que fazem jus ao conceito de “novelão”. Afinal,
existem momentos em que o público não quer apenas acompanhar os acontecimentos.
Quer ver a mocinha finalmente levantar a cabeça, atravessar a porta da frente e
mostrar aos seus inimigos que a história mudou de lado.
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Fonte:
Texto
: Evaldiano de Sousa
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