A primeira versão do clássico de Emily Brontê
A novela Os Morros dos Ventos
Uivantes foi uma adaptação do
clássico romance da escritora inglesa Emily Brontë, produzida e exibida
pela extinta TV Excelsior em 1967. A versão brasileira foi escrita por Lauro
César Muniz, que ainda estava no início de sua carreira e começava a se
destacar como um dos grandes dramaturgos da televisão nacional.
A
trama trazia para a televisão toda a atmosfera sombria, intensa e apaixonada do
romance original. A história gira em torno do amor obsessivo e destrutivo entre
Heathcliff (Altair Lima) e Catherine (Irina
Greggo), personagens marcados por conflitos familiares, vingança, sofrimento e
diferenças sociais. A novela apostava em um tom mais dramático e psicológico,
algo incomum para a época.
A
produção também marcou um momento importante da dramaturgia da TV Excelsior,
emissora conhecida por investir em adaptações literárias sofisticadas e
produções ambiciosas durante os anos 1960. Mesmo com os recursos técnicos
limitados da época, a novela ficou lembrada pelo clima carregado e pela
tentativa de aproximar a teledramaturgia brasileira de grandes obras da
literatura mundial.
Como
aconteceu com muitas novelas da TV Excelsior, praticamente não existem
registros completos preservados da obra, já que o hábito de arquivar produções
ainda era raro naquele período. Por isso, Os
Morros dos Ventos Uivantes acabou
se tornando uma novela cercada de curiosidade e valor histórico para os fãs da
televisão brasileira.
A
adaptação ajudou a consolidar o nome de Lauro
César Muniz, que anos depois escreveria sucessos importantes da
teledramaturgia brasileira, como Escalada (1975), O Casarão (1976), Roda de Fogo (1986),
O Salvador da Pátria (1989) entre outros.
Essa adaptação está prestes a completar 60 anos, e voltou a
minha memória depois do sucesso nova
adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes que chegou cercada de expectativa e polêmica. O
filme, dirigido por Emerald Fennell — vencedora do Oscar por Bela Vingança e
também responsável por Saltburn —
apostou em uma releitura moderna, intensa e bastante sensual do clássico de Emily
Brontë. No elenco principal estão Margot
Robbie como Catherine Earnshaw e Jacob Elordi vivendo Heathcliff. A
química entre os dois foi um dos pontos mais comentados desde os primeiros
trailers.
O romance já teve várias adaptações para o cinema, sendo a de
1939 a mais famosa, no filme dirigido por William Wyler, com Lawrence
Olivier.
Na
TV brasileira, ganhou uma nova adaptação em 1973: a novela Vendaval, de Ody Fraga, produzida pela TV
Record, com Hélio Souto e Joanna Fomm nos papeis principais.
A adaptação de Lauro César Muniz para o clássico ia além de simplesmente reproduzir o universo
da sociedade inglesa retratada no romance. A novela incorporava questões
profundamente ligadas à realidade social brasileira, dando aos personagens
conflitos e motivações que dialogavam diretamente com o contexto do país.
A
trajetória de Heathcliff, interpretado por Altair Lima, enriquecendo e
desafiando o poder estabelecido de Edgar, vivido por Egídio Eccio,
simbolizava a ascensão das camadas populares diante da aristocracia rural
tradicional. Essa temática acabaria se tornando uma marca importante da obra de
Lauro César Muniz, servindo como embrião para produções posteriores como
Os Deuses Estão Mortos, Escalada e O Casarão. Em especial, em Escalada, essa discussão social aparece de
forma ainda mais evidente através do romance central da trama.
Adaptar
um romance inglês regado a vento e neve
aqui no Brasil era algo inimaginável, afinal com a tecnologia da época
com recriar esse clima.
Sobre
o assunto Benedito Ruy Barbosa,
assumindo a direção da Colgate-Palmolive, que produziu a novela, narrou
ao livro “Autores, Histórias da
Teledramaturgia”, do Projeto Memória Globo:
“A
Excelsior tinha transformado a fábrica de cigarros Sudan em um estúdio de
televisão, mas sem qualquer tratamento acústico. Era coisa de maluco gravar uma
novela ali dentro. As crianças passavam de bicicleta e era preciso parar a
gravação. O estúdio era muito grande, tinha mais de 2 mil metros quadrados, com
um pé direito de uns 15 metros. O pessoal de cenografia criou um morro que ia
quase até o teto. Nós fizemos com isopor as melhores cenas de neve do Brasil.
No
dia de gravar as cenas com o vento, deu tudo errado. Ligamos uns ventiladores
grandes, mas o Dionísio Azevedo, que era um diretor perfeccionista,
mandou parar. ‘Não sacode nada! Eu quero vento que levante a saia
dela, que faça mexer a barba dele!’ Ele adiou as gravações. ‘Amanhã,
quero um ventilador decente aqui!’ Foram em São José dos Campos e
trouxeram um aparelho enorme, de tubo de cobre.”
Mais
do que uma simples adaptação literária, Os
Morros dos Ventos Uivantes representou
um importante capítulo da história da teledramaturgia brasileira. Ao
transformar o universo sombrio e apaixonado criado por Emily Brontë em
uma narrativa televisiva nacional, Lauro César Muniz demonstrou sua
habilidade em aproximar grandes clássicos da realidade emocional do público
brasileiro. Mesmo cercada pelo desaparecimento de seus registros originais, a
novela permanece viva na memória dos estudiosos e admiradores da televisão,
como um símbolo da ousadia artística da extinta TV Excelsior nos anos
1960.
Ficha Técnica:
Novela do autor Lauro César Muniz
Adaptação do romance homônimo de Emily Brontë
Direção Geral: Dionísio
Azevedo
Elenco:
ALTAIR
LIMA – Heathcliff
IRINA GRECCO – Catarina
EGÍDIO ECCIO – Edgar Linton
JOÃO JOSÉ POMPEO – Hindley
MARIA ESTELA – Isabel
CARMINHA BRANDÃO – Ellen
PAULO VILLAÇA – José
ÍRIS BRUZZI – Frances
MARCOS PAULO
RICARDO CAMPOS – Mr. Linton
GENY PRADO – Mrs. Linton
PAULO FIGUEIREDO – Heathcliff (jovem)
DÉBORA DUARTE – Catarina (jovem)
Exibição
: de fevereiro a julho de 1967
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Fonte:
Texto: Evaldiano de Sousa





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