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Novelas Inesquecíveis - Estúpido Cupido (1976)

50 Anos da novela que virou fenômeno tendo os áureos anos 60 como pano de fundo



        Poucas novelas conseguiram traduzir uma época com tanta personalidade quanto Estúpido Cupido. Exibida pela  Globo entre 25 de agosto de 1976 e 28 de fevereiro de 1977, a novela de Mário Prata, dirigida por Régis Cardoso, levou para o horário das sete uma história ambientada no início dos anos 1960, misturando romance, humor, juventude, conflitos familiares, costumes conservadores e, principalmente, uma trilha sonora que ajudou a provocar uma verdadeira redescoberta da música jovem brasileira.



Com 160 capítulos e completando esse mês de agosto 50 anos de estreia,  Estúpido Cupido tornou-se também uma produção histórica para a Globo: foi a última novela da emissora gravada em preto e branco, com exceção dos dois capítulos finais, realizados em cores e marcados por um salto temporal de dez anos.

A história se passava na fictícia Albuquerque, pequena cidade do interior de São Paulo, em um momento de profundas transformações no comportamento dos jovens.

Rock, twist, lambretas, motocicletas, jeans, jaquetas de couro, bailes e sonhos de liberdade faziam parte do cotidiano dos personagens. A novela retratava justamente o choque entre uma juventude que começava a questionar padrões e uma sociedade ainda bastante presa aos valores tradicionais.



No centro da história estava Maria Tereza, a Tetê, interpretada pela  saudosa Françoise Forton. Normalista, bonita e sonhadora, ela desejava deixar Albuquerque, conhecer a capital e realizar o grande sonho de ser eleita Miss Brasil.

Seu namorado, João, vivido por Ricardo Blat,  era um jovem idealista que pretendia ser jornalista. Apaixonado por Maria Tereza, mas extremamente ciumento, ele tinha dificuldades para aceitar os sonhos da namorada.

O romance dos dois funcionava como um dos principais fios condutores da trama, mas Estúpido Cupido nunca se limitou ao casal.



 O personagem João, era o alter ego do autor Mário Prata,  e no final da trama, João, que se tornara conhecido como escritor e dramaturgo, estava ansioso por sua estreia na televisão como autor de novelas (tal qual Prata). No último capítulo de Estúpido Cupido, os personagens se reúnem para assistir à estreia de… Estúpido Cupido – a novela dentro da novela – sobre a qual João baseara-se em sua juventude em Albuquerque.  O autor – chegou a participar em 4 capítulos da novela, como o colunista social Mário Alberto, jurado no concurso Miss Albuquerque. 

A censura do Regime Militar não percebeu, mas os nomes do principal casal romântico jovem eram uma referência ao ex-presidente João Goulart, deposto com o Golpe de 1964, e sua mulher Maria Thereza.



A ambição de Maria Tereza de participar do concurso de Miss Brasil acabou se tornando um dos momentos mais marcantes da novela.

A produção decidiu recriar o Concurso Miss Brasil de 1961 e levou a gravação para o Maracanãzinho, no Rio de Janeiro. O evento contou com os apresentadores reais do concurso, Hilton Gomes e Marly Bueno, e aproximadamente 10 mil pessoas na plateia.  A sequência ganhou ainda mais força porque a própria Françoise Forton não sabia qual seria o resultado da disputa. Quando descobriu que Maria Tereza havia vencido, a atriz se emocionou de verdade. A reação acabou sendo incorporada à cena e se tornou uma das grandes curiosidades dos bastidores da produção.

Se Maria Tereza representava o sonho de uma jovem que queria conhecer o mundo, Mederiquis, interpretado por Ney Latorraca, simbolizava a juventude rebelde que começava a romper com os padrões da época. Playboy, fã de Elvis Presley e líder do conjunto de rock Personélitis Bóis, Mederiquis estava havia anos no curso científico justamente para continuar recebendo a mesada do pai.  O personagem rapidamente ganhou destaque e se tornou uma das figuras mais lembradas da novela.

Ao lado de Caniço, vivido por João Carlos Barroso, e Carneirinho, interpretado por Tião d'Ávila, Mederiquis formava uma espécie de representação da chamada “juventude transviada” dos anos 60.



A presença de Ney Latorraca na novela foi especialmente importante para sua trajetória. Mederiquis mostrou o ator em um registro jovem, irreverente e carismático, características que posteriormente seriam fundamentais em sua carreira.



Enquanto os jovens enfrentavam seus conflitos amorosos, a novela também abriu espaço para uma história de amor entre personagens mais velhos -  Olga, interpretada por Maria Della Costa, era uma mulher desquitada e mãe de Maria Tereza, Ciça (Sônia  de Paula)  e Tavico (João Carlos Barroso). Em uma sociedade pequena e marcada pela vigilância dos costumes, ela levava uma vida solitária para evitar comentários.  Do outro lado estava Guima, vivido por Leonardo Villar, um viúvo austero e autoritário, presidente do Albuquerque Tênis Club. O romance entre os dois criava um interessante contraste com os relacionamentos dos jovens. Enquanto Maria Tereza e João viviam a paixão marcada pelo ciúme e pelos sonhos de futuro, Olga e Guima representavam um amor cercado pelas convenções sociais e pela experiência de vida.



Outro personagem importante em Estúpido Cupido era Betina, interpretada por Heloísa Millet. Carioca, ela chegava a Albuquerque para realizar uma pesquisa de sociologia e imediatamente provocava impacto na pequena cidade. Seus costumes mais modernos e sua maneira de enxergar a vida contrastavam com o comportamento das jovens locais.  Betina se envolvia justamente com Mederiquis, formando um casal que ajudava a explorar as diferenças entre a mentalidade da cidade interiorana e os novos comportamentos que começavam a ganhar espaço.

O ambiente escolar também era fundamental na novela. O colégio de Albuquerque era dirigido por Madre Encarnación, personagem de Ida Gomes, uma mulher extremamente rígida com a disciplina. Entre as professoras estavam Irmã Consuelo, de Suely Franco, preocupada principalmente com as regras e o comprimento das saias das alunas, e Irmã Angélica, interpretada por Elizabeth Savala, mais aberta às manifestações artísticas.

        Claro que em uma cidade interiorana  não poderia  faltar o humor típico das pequenas cidades. Adelaide, interpretada por Célia Biar, e Eulália, vivida por Kleber Macedo, eram duas fofoqueiras que acompanhavam a vida dos moradores por telefone. A dupla funcionava praticamente como uma “central de notícias” de Albuquerque, comentando romances, problemas e acontecimentos da comunidade.



Um elemento que talvez seja ainda mais importante para entender o sucesso de Estúpido Cupido, além da história nostálgica, a perfeita reconstituição de época e um elenco que queria fazer dar certo, sem dúvidas era a  música – a trilha sonora.  A novela recuperou canções associadas ao início dos anos 1960 e ajudou a transformar aquele repertório em sucesso novamente.



A música de abertura, “Estúpido Cupido”, na voz de Celly Campello, tornou-se um dos grandes símbolos da produção. Celly, que havia sido uma das principais estrelas da música jovem brasileira no final dos anos 1950 e começo dos 60, voltou às paradas graças à novela.

A abertura (a última também gravada em preto e branco) marcou época: cartões recortados com fotos de jovens ou ícones dos anos 1960 (como Elvis Presley, o Papa João XXIII, concurso de miss, jaquetas de couro, lambretas e carrões) que se movimentavam, dançavam ou interagiam.

Outros temas  voltaram a brilhar graças a inserção na trilha da trama  -  “Banho de Lua”, também de Celly Campello, voltou a ganhar enorme repercussão. A trilha ainda reunia nomes como Maysa, Carlos Gonzaga, Sérgio Murilo, Demétrius, Tony Campello, Os Cariocas e Wilson Miranda, entre outros.  O resultado foi extraordinário.

O LP da trilha sonora, lançado pela Som Livre, vendeu mais de um milhão de cópias, superando a marca anteriormente alcançada pela trilha de Escalada (1975). 

O impacto foi tão grande que especialistas apontam Estúpido Cupido como um marco na história das trilhas sonoras de novelas e no próprio mercado fonográfico brasileiro. O sucesso ajudou a provocar um verdadeiro revival da música jovem do período pré-Jovem Guarda.

A produção mostrou que uma novela poderia fazer muito mais do que simplesmente utilizar músicas como pano de fundo. A trilha passou a funcionar como parte fundamental da identidade da história. Por isso, EstúpidoCupido ocupa um lugar importante na evolução do modelo de trilhas sonoras da Globo, iniciado alguns anos antes.

Embora Albuquerque fosse uma cidade fictícia localizada no interior paulista, as gravações externas foram realizadas em Itaboraí, no Rio de Janeiro. A praça principal da cidade foi escolhida porque apresentava características que davam à produção a aparência de uma pequena cidade do interior de São Paulo.  A estratégia ajudou a criar o ambiente nostálgico pretendido por Mário Prata, fazendo com que a novela tivesse uma identidade visual própria.

O nome Albuquerque é uma referência à cidade onde o autor Mário Prata cresceu, Lins (no interior paulista), antigamente chamada de Albuquerque Lins. Prata é mineiro de Uberaba, mas cresceu em Lins. O autor voltou a usar o nome Albuquerque para ambientar outra novela: Bang Bang, em 2005.

Mário Prata   estreava na Globo no horário das sete com uma história que combinava humor, romance e observação dos costumes.

A imprensa da época destacou justamente a descoberta de um novo autor e a capacidade da novela de retratar uma geração. O próprio acervo do Memória Globo reúne referências de jornais e depoimentos que registraram a repercussão da obra naquele período.

O texto conseguia olhar para os anos 60 com nostalgia, mas também com humor, mostrando os conflitos entre pais e filhos, homens e mulheres, tradição e modernidade.



Além de Françoise Forton, Ricardo Blat e Ney Latorraca, Estúpido Cupido reuniu um elenco que hoje representa uma verdadeira fotografia da dramaturgia brasileira dos anos 70.

Estavam na produção nomes como Leonardo Villar, Maria Della Costa, Luiz Armando Queiroz, Elizabeth Savala, João Carlos Barroso, Djenane Machado, Heloísa Millet, Suely Franco, Mauro Mendonça, Marilu Bueno, Nuno Leal Maia, EmilianoQueiroz, Ida Gomes, Oswaldo Louzada, Vic Militello e Célia Biar, entre muitos outros.

A própria despedida de Estúpido Cupido entrou para a história da televisão. Durante praticamente toda a novela, o público acompanhou Albuquerque em preto e branco. Nos dois capítulos finais, porém, a produção passou a ser exibida em cores, marcando uma transição tecnológica importante na televisão brasileira.  A mudança ainda foi acompanhada por um salto temporal de dez anos na história. Assim, a novela que havia começado mergulhada no início dos anos 60 terminava mostrando seus personagens em uma nova fase de suas vidas.

Estúpido Cupido estreou em uma quarta-feira (25/08/1976). Devido ao calendário dos Jogos Olímpicos de 1976 (de Montreal), a  Globo teve de reeditar os capítulos finais da novela anterior no horário, Anjo Mau, para que o último fosse exibido na terça-feira do dia 24/08/1976, empurrando a estreia de Estúpido Cupido para o dia seguinte, quarta-feira. Seu último capítulo foi ao ar em 28/02/1977, uma segunda-feira.

Mais do que uma novela sobre romances, Estúpido Cupido foi uma novela sobre mudança.  De  um lado estavam as famílias tradicionais, os pais autoritários, as regras escolares, os costumes rígidos e a vigilância permanente de uma pequena cidade. Do outro, apareciam os jovens querendo dançar, ouvir rock, usar jeans, andar de lambreta, namorar e construir um futuro diferente daquele imaginado pelos pais.

Maria Tereza queria ser Miss Brasil. João queria ser jornalista. Mederiquis queria viver como um astro do rock. Betina trazia para Albuquerque ideias mais modernas. E todos eles, de maneiras diferentes, representavam uma juventude que começava a enxergar novos caminhos.

Cinco décadas depois de sua estreia, Estúpido Cupido continua sendo lembrada por vários motivos: pelo elenco, pelos personagens, pelo humor, pelo romance de Maria Tereza e João, pela irreverência de Mederiquis, pela delicadeza de Belchior (Luiz Armando Queiroz), pelo conflito entre tradição e modernidade e, sobretudo, pela música.

Mário Prata conseguiu transformar a nostalgia dos anos 60 em entretenimento e, ao mesmo tempo, ajudou a resgatar artistas e canções que estavam afastados dos holofotes.

Sua importância ultrapassa, portanto, a própria história de Albuquerque.

Estúpido Cupido foi uma novela que não apenas contou uma história ambientada nos anos 60: ela fez os anos 60 voltarem a cantar.

E talvez seja justamente por isso que a produção permaneça tão viva na memória da televisão brasileira.

 

Ficha Técnica:



Novela do  autor Mário Prata

Direção Geral – Régis Cardoso

Elenco:

LEONARDO VILLAR – Guima (Alcides Guimarães Filho)
MARIA DELLA COSTA – Olga Mota
FRANÇOISE FORTON – Tetê (Maria Teresa Mota)
RICARDO BLAT – João (João Guimarães)
NEY LATORRACA – Mederix (Antônio Ney Medeiros)
LUIZ ARMANDO QUEIROZ – Belchior Neto
ELIZABETH SAVALA – Irmã Angélica
JOÃO CARLOS BARROSO – Caniço / Tavico (Joel Otávio Mota Jr.)
DJENANE MACHADO – Glorinha (Maria da Glória Siqueira)
MAURO MENDONÇA – Armando Siqueira (Tom Mix)
MARILU BUENO – Mariinha (Maria Antonieta Siqueira)
NUNO LEAL MAIA – Acioli (Ricardo Acioli)
HELOÍSA MILET – Betina
SÔNIA DE PAULA – Ciça (Maria Cecília Mota)
TIÃO D’AVILA – Carneirinho
HELOÍSA RASO – Aninha (Ana Maria)
OSWALDO LOUZADA – Guimão (Alcides Guimarães)
ÊNIO SANTOS – Prefeito Aquino
CÉLIA BIAR – Adelaide
KLEBER MACEDO – Eulália
IDA GOMES – Madre Encarnación
SUELY FRANCO – Irmã Consuelo
ANTÔNIO PATIÑO – Padre Batista (Batistão)
EMILIANO QUEIROZ – Padre Almerindo
CARLOS KROEBER – Frei Damasceno (Damassa)
VIC MILITELLO – Daquinha (Joana Darc da Silva)
TONY FERREIRA – Cabo Fidélis
LUÍS ORIONI – Miguel
CLÁUDIO FONTES – Godinho (Arthur Godinho)

o garoto RICARDO GARCIA – Zé Maria (José Maria Guimarães)



e
ALDO BUENO – policial
ANTÔNIO VICTOR – Olegário
ARTHUR COSTA FILHO – Padre Guido
CELLY CAMPELLO como ela mesma
CLÁUDIO AYRES DA MOTTA – Mr. Gordon / Duarte
DIRCEU RABELO – Zé Maria (adulto, no final)
HENRIQUETA BRIEBA – Vó Zinha
HILTON GOMES como ele mesmo (apresentador do concurso de miss)
JOSE AUGUSTO BRANCO
MARIA DA CONCEIÇÃO – Maria
MARIA GLÓRIA SOARES – Laura (casa-se com Miguel)
MÁRIO PRATA – Mário Alberto (colunista social, jurado no concurso Miss Albuquerque)
MARLY BUENO como ela mesma (apresentadora do concurso de miss)
MURILO NÉRI como ele mesmo (apresentador do concurso de miss)
NEUZA AMARAL
PATRÍCIA BUENO – Sueli
PATRÍCIA MENDES – Leila
PAULO PINHO – Paulo (marido de Glorinha, no final)
PAULO REZENDE
RENATO BASTOS – Orlando
SANDRO POLÔNIO – Comendador Giovanni Fanfani, o Rei do Cacau (casa-se com Aninha)
SILAS GREGÓRIO – Eládio
ZANONI FERRITE – Pepê (Pedro Paulo)

Exibição: 25 de Agosto de 1976 a 28 de Fevereiro de 1977

Capítulos: 160

Veja Também: 

O Noviço 

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O Morro dos Ventos Uivantes (1967)



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Vejo a  Lua no Céu



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Novelas Inesquecíveis - Força de Um Desejo (1999)

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Anjo Mau Nacional 



Anjo Mau (1976)



Vanusa 



Guiçjerme Aranates 

Estupido Cupido 


Françoise Forton


Ney Latorraca 


Mario Prata 


Maysa


Fonte:

Texto: Evaldiano de Sousa

Pesquisa: www.wikipedia.com.br www.memoriaglobo.com.br 


 

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