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Enquete e10blog

Meus Personagens Favoritos do Ary Fontoura (Parte 2)

O Quinzinho de “Êta Mundo Melhor!” e  o Romeu de “Hipertensão”  no  Globoplay  Novelas



        Ary Fontoura é um daqueles nomes que atravessam gerações da TV brasileira com prestígio, carisma e uma carreira marcada pela versatilidade. Com mais de seis décadas dedicadas à arte, o ator construiu uma trajetória sólida no teatro, no cinema e, principalmente, na televisão, onde se tornou presença constante em novelas de grande sucesso.

Na TV, Ary transitou com naturalidade entre o drama e a comédia, criando personagens memoráveis. Seu talento para o humor refinado, aliado a um timing cênico preciso, fez dele um dos grandes intérpretes de tipos populares, sem jamais cair na caricatura. Ao mesmo tempo, mostrou força dramática em papéis densos, sempre com atuações seguras e respeitadas pela crítica.

Escreveu com letras de outro  seu nome na teledramaturgia com personagens como  O Rodolfo Augusto de Assim na Terra como Céu (1970), considerado a primeira representação de um homossexual em novelas  brasileiras; o lobisomem Aristóbulo  de Saramandaia (1976); o Avarento Nonô Correia de Amor com Amor se Paga (1984);   o prefeito de Asa Branca Florindo Abelha de Roque Santeiro  (1985); o pérfido Coronel Artur da Tapitanga  de  Tieta (1989) e o Silveirinha de A Favorita (2008) entre  outros.



Em “Êta Mundo Melhor”, Ary Fontoura reafirma esse legado.  Voltando a viver o submisso Quinzinho, marido da  Cunegundes (Elizabeth Savalla), seu personagem rapidamente conquistou o público, funcionando como um dos pilares da trama ao unir leveza, humanidade e humor. A atuação do ator se destaca pela naturalidade com que conduz cenas cômicas e emocionais, ajudando a manter o espírito otimista e afetuoso que é a marca do universo criado por Walcyr Carrasco.

O sucesso de Ary na novela não é apenas resultado da nostalgia, mas da plena forma artística em que ele se encontra. Com presença cênica forte e enorme conexão com o público, inclusive  os das redes sociais,  a qual ele no auge dos seus 93,  anos é muito  atuante,  o ator prova que talento não tem prazo de validade — e que experiência, quando aliada à sensibilidade, segue sendo um diferencial poderoso na dramaturgia brasileira.



AryFontoura já foi homenageado pelo e10blog em julho de 2013,  que você  pode  rever AQUI, mas ficaram tantos personagens interessantes de fora naquela  época e ainda  vários  outros que ele fez de lá para cá, que  o ator  mais que merece essa segunda parte.

 

Professor Baltazar Camará de O Espigão (1974)



 O Professor Baltazar Camará, interpretado por Ary Fontoura na novela O Espigão (1974), do Dias Gomes, é um personagem marcado por fortes contradições, que ajudam a aprofundar o retrato psicológico da trama.

Intelectual idealista e defensor de valores éticos, Baltazar surge como uma voz crítica diante da especulação imobiliária e do crescimento desumano da cidade, eixo central da novela. Como professor, ele simboliza o pensamento reflexivo e humanista em meio à ganância de empresários e políticos que movem a narrativa.

Ao mesmo tempo, o personagem carrega neuroses profundas que o tornam ainda mais complexo. Baltazar colecionava mechas de cabelo de mulheres que desejou ao longo da vida, mas jamais conseguiu possuir — um hábito perturbador que revela sua repressão emocional, solidão e dificuldade de lidar com o desejo. Esse traço íntimo expõe um homem dividido entre o discurso moral elevado e uma vida afetiva marcada pela frustração e pelo isolamento.

Ary Fontoura dá ao personagem uma interpretação contida e inquietante, equilibrando a postura intelectual com as fragilidades emocionais de Baltazar, sem cair na caricatura. O resultado é um tipo humano denso, incômodo e extremamente atual.

Em O Espigão, o Professor Baltazar reforça a assinatura de Dias Gomes ao criar figuras que não são maniqueístas: personagens que, ao mesmo tempo em que criticam a sociedade, revelam suas próprias rachaduras internas, tornando a novela um retrato complexo das tensões morais e psicológicas da vida urbana.

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Ubirajara de Dancin´Days (1978)



        Em Dancin’ Days (1978), novela icônica de Gilberto Braga, Ary Fontoura deu vida a Ubirajara, um personagem que conquistou o público pela delicadeza e humanidade. Dono de uma academia de ginástica, ele é um homem simples, tímido e de hábitos discretos — bem distante do glamour que marcava o universo da trama.

Solteiro e vivendo com suas cadelas, Ubirajara revela um lado afetuoso e um tanto solitário. Sua vida muda ao se apaixonar por Júlia Matos, a protagonista vivida  pela Sônia Braga, com quem se casa, numa relação marcada por entrega e compreensão. Apesar do amor, o casamento não resiste aos caminhos distintos dos dois, e Ubirajara segue em frente, encontrando um novo afeto ao final da história.

A interpretação sensível de Ary Fontoura transformou Ubirajara em um personagem memorável, daqueles que equilibram humor suave e emoção sincera, reforçando a força dos tipos humanos tão bem desenhados por Gilberto Braga.

 

Ernani de Marron-Glacê (1979)



        Ernani foi um personagem importante de Marron Glacê (1979), novela de Cassiano Gabus Mendes, interpretado por Ary Fontoura. Diferente dos tipos cômicos mais escancarados, Ernani representava um humor mais ácido, marcado pelo cinismo e pelo controle excessivo.

Bem posto financeiramente, ele era o pai de Andreia, personagem da Denise Dumont,  e casado com Leonora (Lady Francisco),  se colocava como um vigilante obsessivo da vida da filha. Controlador, acompanhava cada passo da jovem e chegava ao ponto de anotar em uma caderneta os nomes de todos os namorados dela, numa atitude que misturava autoritarismo, ironia e uma falsa moralidade.

Ao longo da trama, o personagem ganha contornos mais incômodos quando vem à tona seu envolvimento passado com Érika, a personagem da  saudosa Mila Moreira. Mesmo após o fim da relação, Ernani passa a assediá-la, ignorando as constantes negativas da personagem, o que escancara seu lado hipócrita e moralmente questionável.

Com essa composição, Ary Fontoura deu vida a um personagem ambíguo, que transitava entre o humor e o desconforto, ajudando a enriquecer os conflitos de Marron Glacê e mostrando mais uma faceta de sua versatilidade como ator.

 

Raul de Plumas e Paetês (1980)



        Na novela Plumas e Paetês (1980), de Cassiano Gabus Mendes, Ary Fontoura deu vida ao Raul, um personagem que ajudou a reforçar a versatilidade e o carisma do ator na teledramaturgia brasileira.

Raul é retratado como um homem astuto, irônico e cheio de jogo de cintura, típico do universo criado por Cassiano, onde o humor sofisticado se mistura a intrigas e conflitos afetivos. Ele é o pai de Renato , o protagonista vivido  pelo saudoso José Wilker, mas vive batendo de frente  com esse filho  devido a vida  de  playboy que ele leva.  O  personagem  pode não ser um dos  mais lembrado da trama, mas que contribuiu bastante para o charme e a dinâmica da novela

 

Nero Petraglia  de Bebê aBordo (1988)



        Em Bebê a Bordo (1988), novela irreverente do Carlos Lombardi, Ary Fontoura deu vida ao inesquecível Nero Petraglia, um ex-ator  e grande canastrão,  espalhafatoso, autoritário e cheio de manias, típico personagem moldado para o exagero e o deboche.

        Um dos pontos altos da novela é a  dobradinha histórica com a saudosa Dina Sfat, que interpretava sua nora. Os embates entre os dois eram explosivos, recheados de ironia, provocações e diálogos cortantes. Dina, com sua presença forte e personalidade arrebatadora, fazia frente ao Ary  de igual para igual, criando cenas memoráveis e deliciosamente exageradas. A parceria entre Ary Fontoura e Dina Sfat elevava o humor da novela, mostrando dois gigantes da dramaturgia se divertindo em cena e extraindo o melhor do texto ousado de Lombardi.


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Romeu de Sete Pecados (2007)



        Na novela Sete Pecados (2007), do Walcyr Carrasco, AryFontoura deu vida a Romeu, um personagem marcado pela nostalgia e pelos sentimentos mal resolvidos do passado. Romeu é um homem carismático, dono de um jeito irônico e ao mesmo tempo sensível, que carrega consigo lembranças de um grande amor que nunca conseguiu esquecer completamente.

        O romance entre Romeu (Ary Fontoura) e Juju (Nicette Bruno) marcou uma das histórias mais sensíveis de Sete Pecados. Separados depois de viverem um amor intenso na juventude, os dois passam décadas sem se ver. Já maduro, Romeu resolve procurar Juju e reviver esse sentimento interrompido pelo tempo. Desconfiado das intenções que sua fortuna poderia despertar, ele escolhe esconder a própria riqueza e se apresenta como um homem simples. Uma história sobre reencontro, afeto e segundas chances.

        A parceria de Ary  com a inesquecível Nicette Bruno foi um dos grandes acertos da novela. Juntos, Romeu e Juju formaram uma dupla carregada de ternura, humor e emoção, traduzindo com sensibilidade um amor amadurecido pelo tempo. A química entre os dois veteranos deu ainda mais verdade à história, transformando cada reencontro em cenas delicadas e cheias de afeto. Uma dobradinha memorável, que permanece viva na memória do público e celebra o talento de dois gigantes da dramaturgia brasileira.

 

Jacques  de Caras e Bocas (2009)



        O Jacques , personagem vivido pelo Ary Fontoura na novela Caras & Bocas (2009), do Walcyr Carrasco, é  o Milionário e proprietário da empresa de extração de diamantes Conti,  de valores muito  conservadores. Criou a neta Daphne (Flávia Alessandra)  após a morte dos pais dela, mas nunca lidou bem com o fato de ela ter se tornado mãe sem se casar e de ter optado por não refazer a vida. Já na velhice, passa a revisitar suas escolhas e carrega o peso da culpa: reconhece que sua rigidez contribuiu para a solidão da neta e para a armação que, no passado, a afastou do grande amor. No início da novela, acaba desaparecendo após um acidente em uma mina na África do Sul, fato que desencadeia os acontecimentos da trama.

 

Coronel Coriolano de Gabriela (2012)



        O Coronel Coriolano, vivido por Ary Fontoura no remake de Gabriela (2012), escrito por Walcyr Carrasco a partir da obra de Jorge Amado, é um daqueles tipos clássicos do coronelismo nordestino — e ao mesmo tempo carregado de ironia.

Coriolano é um coronel tradicional, representante da velha elite rural de Ilhéus, profundamente apegado aos costumes conservadores, ao poder masculino e à moral rígida que tenta impor à cidade. Ele enxerga com desconfiança qualquer sinal de mudança, sobretudo a ascensão de novos valores, a modernização e, claro, a liberdade feminina representada por Gabriela (Juliana Paes). 

Inesquecível   cena da descoberta da traição do Coronel Coriolano é uma das mais impactantes e simbólicas do personagem no remake de Gabriela. Ao flagrar a amante com outro homem dentro de sua própria casa, Coriolano tem o orgulho ferido de forma irreversível. Tomado pela fúria e pela humilhação pública, o coronel reage de maneira violenta e teatral, expulsando os dois nus, em plena rua, como se aquele castigo fosse uma forma de restaurar sua honra diante da sociedade de Ilhéus.

 

Dr. Lutero de Amor à Vida (2013)



        O Dr. Lutero é um dos personagens mais queridos interpretados por Ary Fontoura na novela Amor à Vida (2013),  mais uma trama do  Walcyr Carrasco em que o ator  participou. Médico experiente do Hospital San Magno, ele se destacou não apenas pela competência profissional, mas, principalmente, pelo humor afiado, ironia elegante e humanidade.

Lutero funcionava quase como uma voz da consciência dentro do hospital. Observador, sarcástico na medida certa e dono de tiradas memoráveis, ele comentava os absurdos e conflitos à sua volta com inteligência e leveza, servindo muitas vezes de alívio cômico em meio às fortes tensões da trama.

Um dos grandes encantos do Dr. Lutero,  foi justamente sua delicada e madura história de amor com Bernarda, personagem vivida com elegância por Nathalia Timberg. A relação dos dois fugia completamente dos clichês românticos tradicionais da teledramaturgia e conquistou o público pela ternura, cumplicidade e respeito.

A dobradinha cênica entre Ary Fontoura e Nathalia Timberg foi simplesmente perfeita. um romance feito de gestos, ironias compartilhadas e afeto sincero — daqueles que aquecem o coração sem precisar levantar a voz.

 

Barão de Ouro Verde de Orgulho e Paixão (2018)



        O Barão de Ouro Verde  foi mais um   personagem  saborosos vivido por Ary Fontoura, vindo  na novela Orgulho e Paixão (2018), de Marcos Bernstein, exibida no horário das seis da  Globo.

Figura da aristocracia rural do Vale do Café, o Barão era um homem tradicional, conservador e orgulhoso de seu título, representando bem a elite agrária do início do século XX. Rico, influente e dono de vastas propriedades, ele fazia questão de manter as aparências e os costumes da época, valorizando a hierarquia social, os bons modos e os casamentos por conveniência.

Avô  de Ema (Ágatha Moreira) é detentor de um título concedido pelo já falecido imperador Dom Pedro II, cuja memória reverencia com devoção, vive hoje limitado a uma cadeira de rodas. É um sujeito tradicionalista, intolerante, orgulhoso e de temperamento áspero, marcado por uma amargura constante. Tamanha implicância acaba, paradoxalmente, rendendo momentos cômicos. Extremamente apegado à neta, faz de tudo para poupá-la da verdade sobre a delicada situação financeira da família. Resiste até o fim à ideia de vender suas terras, mesmo quando as dívidas se tornam impossíveis de ignorar.


Lumiére  / Seu Lampião de Fuzuê (2023)



        Em Fuzuê, novela de Gustavo Reiz, Ary Fontoura dá vida a um dos personagens mais carismáticos da trama: Seu Lampião, que prefere ser chamado de Lumiére — jurando ter ascendência francesa, apesar do inconfundível sotaque nordestino.  Dono do animado Beco do Gambá, na Lapa, Lumiére é o coração do núcleo artístico da novela. É ali que música, dança e afeto se misturam, sob o comando desse anfitrião generoso, divertido e cheio de histórias para contar.

Mais do que o dono de uma casa de shows, Lumiére é protetor dos artistas, conselheiro e símbolo de resistência cultural.   Patrão e amigo de Luna (Giovanna Cordeiro) é um dos protetores de Maria Navalha  (Olívia Araujo) e da trupe dos artistas.

 

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Fonte:

Texto: Evaldiano de Sousa

 

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